Amazônia e a diplomacia do agro

 

*Artigo originalmente postado em Estadão.com em 6 de setembro de 2019

As queimadas na região amazônica colocam, mais uma vez, o agronegócio no epicentro do aquecido debate internacional sobre as questões ambientais e suas consequências comerciais. Independente de territorialidade, bacia hidrográfica ou bioma, todo o setor produtivo parece ter sido envolto pela discussão da sustentabilidade ambiental e do decrépito antagonismo de produção e proteção.

Nos últimos anos, a sociedade brasileira alcançou grande maturidade no diálogo entre o agronegócio e o meio ambiente. Desde a Conferência de Clima no Rio de Janeiro, em 1992, os brasileiros entendem as riquezas naturais como um patrimônio indispensável. O nosso agronegócio, que vai muito além da produção de alimentos, envolvendo bioenergia, produtos florestais, máquinas e equipamentos, a grande maioria dos bens de consumo e serviços, deu um salto a partir do início da década de 90 e conquistou os principais mercados do mundo, transformando o Brasil no maior ecossistema agro mundial, baseado nos princípios de sustentabilidade, ciência e competitividade.

No início deste ano, validando o fato da indissociável relação entre produção e proteção, o STF julgou as incertezas acerca do código florestal, tornando o Brasil, entre os países agroexportadores, um dos mais rigorosos do mundo nas exigências ambientais. O setor produtivo e seus consumidores passam, portanto, a ter um marco legal claro a ser executado, observado e exigido, reafirmando o nosso compromisso em produzir com eficiência e proteger com eficácia.

O acalorado debate global incitado pelas queimadas na Amazônia, se não percebido como parte de uma nova dinâmica de negociação entre nações, trará prejuízos ao País, ao agronegócio e às nossas relações comerciais, sendo, portanto, imprescindível o reconhecimento do valor atribuído pelos mercados consumidores, nossos clientes, à questão da sustentabilidade no processo produtivo.

Passamos do ativismo ambiental de conscientização para o ambientalismo operacional, unindo produção e preservação, totalmente dependente da ação de todos os agentes evolvidos na cadeia produtiva, e onde todos os conceitos devem estar alinhados internacionalmente e, acima de tudo, nas relações bilaterais com grandes países consumidores.

O Brasil ingressa em um jogo comercial de elite. Em julho, reforçou a notoriedade do agronegócio brasileiro, a conclusão do acordo MERCOCUL -União Europeia, cujas negociações perduravam há 20 anos. O tratado abre um mercado de 500 milhões de consumidores, com renda per capita anual de US$ 34 mil. Neste mês de agosto, concluímos também outro acordo de grande relevância, com o EFTA, bloco formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, que soma um PIB de US$ 1,1 trilhão.

Deixamos de ser uma nação coadjuvante, passando a ser um dos protagonistas nas relações comerciais, onde as regras diplomáticas, de convivência e competitividade são diferentes e acirradas. Cabe a nós buscar, por meio de canais de negociação, a maneira mais eficiente para garantir o espaço e diferenciais competitivos. Considerando esse cenário, não podemos negligenciar as implicações da atual crise ambiental.

A nova dinâmica do mercado global representa uma oportunidade ímpar para a ampliação dos negócios do Brasil com o exterior, mas exigem aprimoramento da governança dos processos produtivos e conciliação de progresso econômico com sustentabilidade socioambiental. É imperativa uma intersecção eficaz de políticas e sistemas de proteção e exigências comerciais com as necessidades de produção do agronegócio — que, afinal, agora tem acesso a consumidores cada dia mais exigentes e sofisticados.

O Brasil não pode se perder em diversionismos na atual questão da Amazônia ou outras questões correlatas. Os debates devem estar centrados nas relações diplomáticas e de mercado, nas necessidades e nas reinvindicações de produtores e consumidores, longe de uma estridência que em nada contribui para as soluções.

É preciso estabelecer um padrão de produção sustentável e, com base nele, criar regras comerciais que levem em conta o sistema produtivo, e não a territorialidade, como vem sendo feito ao longo da história da humanidade. Com a definição de um conceito mundialmente alinhado e a criação de métricas e processos que permitam atestar a sustentabilidade, serão viáveis regras comerciais que incentivem a produção ambientalmente responsável, com tarifas zero para acesso a mercados, e alinhem e atendam as exigências dos nossos clientes.

O que não deve ser feito, de forma alguma, é associar as queimadas na Amazônia com a produção de alimentos e, enfim, com o agronegócio consciente, que deve ser percebido e defendido como um ativo valioso para o País, assim como é o meio ambiente. Isso não resolverá o problema de gestão do território e proteção das riquezas naturais e não trará vantagens nas negociações globais, mas prejudicará uma atividade econômica fundamental para a prosperidade social e econômica de milhões de brasileiros, no campo e principalmente nas cidades.

Proveniente da região amazônica ou não, a marca “made in Brazil” e as cores verde e amarelo representam uma única nação, comprometida com nossos dois grandes patrimônios: agronegócio e meio ambiente.

*Gustavo Diniz Junqueira é secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo